“O mundo abrasilerou”, Krugman

24 de Setembro de 2009

Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, é conhecido por traduzir a linguagem econômica para as pessoas que não têm grande intimidade com a área. É, por isso, elogiado e criticado. Questiona diversos aspectos da teoria econômica, entre eles a vertente que não leva em conta as pessoas, variáveis não muito racionais, como agentes de imperfeição dos mercados financeiros e das tão faladas “bolhas”. Para ele, a economia keynesiana é a que oferece o melhor arsenal para tratar das recessões, e a realidade financeira deve penetrar a macroeconomia. Por tudo isso, é elogiado e criticado também.

Polêmicas à parte, não se pode negar que Krugman, em relação à crise mundial, é um daqueles que pode até dizer “eu avisei!”. Diferentemente de diversos de seus colegas, ele não havia considerado que fortes recessões fossem coisa do passado, tanto que, lançou, há cerca de dez anos, O Retorno da Grande Depressão. Uma grande depressão (nos moldes da que os americanos viveram a partir do crash da bolsa em 1929 até o final da Segunda Guerra Mundial) não retornou, mas os sinais de problemas estavam lá para quem pudesse e quisesse ver. Krugman os viu.

Veio a crise mundial e seu livro, muito apropriado para o momento, foi reeditado com o título A Crise de 2008 e a Economia da Depressão. “Este é um livro sobre economia”, diz ele. “Mas a economia, inevitavelmente, acontece no contexto político”, continua, dando o tom de multidisciplinaridade do seu pensamento. Para ele, o capitalismo triunfou (sobre o socialismo), não somente pelos méritos do sistema de mercado, que carrega consigo iniquidade e injustiça, mas porque não há, hoje, alternativa plausível a esse sistema.

Ele deixa, contudo, um alerta “A situação durará para sempre. Certamente haverá outras ideologias, outros sonhos; e eles emergirão, se a atual crise econômica persistir e se aprofundar”.

Governo forte

Se o capitalismo tende a perdurar, Krugman considera que ele será mais eficaz com regulação do sistema bancário e controles mais fortes e tradicionais na economia, como os que funcionaram nos cinquenta anos que se seguiram à Grande Depressão, desde que atualizados para o nosso tempo. Em sua coluna no New York Times, ele afirmou que o que realmente evitou uma nova Grande Depressão foi um governo forte, isto é, que não parou de gastar quando o setor privado estagnou.

Alfinetando gestões anteriores, ele acrescenta: “governo forte e administrado por pessoas que compreendem as virtudes dessa instituição”. Ferrenho crítico da administração George W. Bush, também não poupa Ronald Reagan: “Reagan estava errado: às vezes, o setor privado é o problema e o governo, a solução”.

“A situação econômica permanece terrível. Nós ainda não alcançamos o ponto no qual as coisas estejam realmente melhorando. Por ora, temos que comemorar os indicadores de que as coisas estão piorando mais lentamente”, afirmou Krugman em sua coluna no mês de agosto.

No dia 2 de dezembro, o economista da Princeton University estará no Brasil falando de futuro, durante a ExpoManagement 2009. Teremos, então, a oportunidade de saber se, até lá, sua visão permanecerá cinzenta, e também o que ele pensa sobre o destino da América Latina.

“Somos todos brasileiros”

Krugman sabe bem que, de crise, temos certo know-how. Em outubro do ano passado, podíamos ler em seu blog: “Somos todos brasileiros agora”. Segundo ele avaliou, as grandes economias estavam começando a conhecer o tipo de enfermidade que antes era associada aos mercados emergentes no final dos anos 1990 –e que constituíam alertas para a crise atual.

Em meados de 2008, Krugman afirmou, em entrevista à Folha de São Paulo, que o Brasil rumava para a posição de líder dos países emergentes, ainda que Índia e China crescessem a um ritmo maior do que o nosso (natural, pois começaram a crescer muito recentemente). Entretanto, também afirmou que nosso crescimento era menor do que seu potencial. A explicação? Uma suspeita (ele diz não ter certeza) recai sobre a educação: “Nos países asiáticos de elevado crescimento, a educação é surpreendentemente melhor do que se esperaria, mesmo o país tendo muita pobreza”. Essa é uma certeza.

Um ano depois, o economista declarou que a América Latina superará a crise mundial mais rapidamente que os países ricos, mas que ficará atrás das economias asiáticas, segundo informações da agência EFE. Como “somos todos brasileiros” há mais tempo, nós, os latino-americanos, estamos mais bem preparados para enfrentar esta turbulência do que estivemos em crises anteriores. No entanto, é preciso que os ricos se recuperem e impulsionem uma verdadeira recuperação global.

Comércio mundial e Prêmio Nobel

Esse mundo interconectado foi objeto do estudo que Krugman iniciou em 1979 e o levou ao Prêmio Nobel no ano passado. Nas palavras do comitê julgador, “por sua análise dos padrões do comércio e a respeito da localização da atividade econômica”. Integrando a geografia econômica e o comércio internacional, as pesquisas do economista explicam quais bens são produzidos em que localidades e por quê.

Com simplicidade e senso prático, ele demonstra por que o comércio mundial foi dominado por poucos países similares uns aos outros, que vendem produtos similares –o oposto do que postulam teorias comerciais tradicionais (que consideram que as diferenças entre países explicam por que alguns exportam produtos agrícolas e outros bens industriais). Consumidores gostam de variedade e escolhem entre produtores de diferentes países, permitindo aos países continuar trocando produtos parecidos –afinal, um cidadão alemão pode comprar um automóvel americano, ainda que a Alemanha fabrique automóveis; e vice-versa.

As empresas, por sua vez, tornam-se mais eficientes na produção, e crescem, conforme vendem mais, em larga escala, em vez de se concentrarem no mercado local. Seu modelo explica, também, sob quais condições de comércio as empresas escolhem algumas regiões, em detrimento de outras. Para o pesquisador, a globalização leva à concentração, tanto geográfica quanto por especialidades, o que favorece a maior concentração demográfica nos grandes centros urbanos –com todas as suas consequências danosas ao meio ambiente.

Referências bibliográficas:

GODOY, Denyse. “Krugman defende ação do Banco Central no Brasil”. Folha de São Paulo, 25 jul. 2008. Disponível online em <http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u426035.shtml>. Acesso em 14 set. 2009.

KRUGMAN, Paul. “How did economists get it so wrong?”. The New York Times, 2 set. 2009. Disponível online em <http://www.nytimes.com/2009/09/06/magazine/06Economic-t.html>. Acesso em 11 set. 2009.

“It’s a small world after all”. 6 out. 2008. Disponível online em http://krugman.blogs.nytimes.com/2008/10/06/its-a-small-world-after-all/. Acesso em: 11 set. 2009.

The Return of Depression Economics and The Crisis of 2008. Nova York: W.W. Norton, 2009.

RAMPELL, Catherine. “Professor and columnist wins economics Nobel”. The New York Times, 13 out. 2008. Disponível online em http://www.nytimes.com/2008/10/14/business/economy/14econ.html?_r=1. Acesso em 11 set. 2009.

EFE/WALL STREET JOURNAL AMERICAS. “Según Paul Krugman, América Latina superará la crisis antes que los países avanzados”. 20 ago. 2009. Disponível online em <http://online.wsj.com/article/SB125077920272046453.html>. Acesso em 14 set. 2009.

Por Alexandra Delfino de Sousa, administradora de empresas e diretora da Palavra Mestra.
HSM Online
18/09/2009

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As 50 companhias mais inovadoras do mundo

4 de Agosto de 2009

Foi publicado o levantamento realizado pela BusinessWeek e Boston Consulting Group (BCG) sobre as companhias mais inovadoras do mundo.

Realizado desde 2005, o levantamento deste ano apresentou como destaque a entrada de 15 novas empresas entre as 50 principais. Além disso, o número de empresas americadas diminuiu, frente ao crescimento de empresas originadas de paises em desenvolvimento como India, China, Correia do Sul…

Um claro reflexo dos movimentos economicos globais.

Para o Brasil, resta lamentar a ausência de empresas nacionais. Até quando?!

Acesse a íntegra da publicação clicando aqui.

Leia também “18 segredos das melhores empresas do mundo


Medidas básicas para administrar a crise

30 de Julho de 2009

Início do final da crise?

21 de Julho de 2009

A divulgação do Índice de Confiança do Empresário Industrial, medido pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) com o empresariado divulgada ontem demonstra sinais de que podemos estar deixando os momentos mais graves da crise, que definitivamente não foi uma “marolinha”, e retomando uma curva ascendente de crescimento.

Evidente que ainda é muito cedo, os sinais globais não permitem otimismo, principalmente aqueles oriundos da Europa, do Japão e ainda dos EUA.

De qualquer modo, é a primeira vez que alguns dos indicadores revertem os sinais negativos e isso anima o empresariado, que contribuiu para a criação de um ânimo diferente, típico de início do segundo semestre, quando se aproximam os momentos de aquecimento da demanda interna em diversos setores.

Enquanto os sinais não ficam mais claros, cabe retomar uma pérola dita em recente palestra por José Roberto Mendonça de Barros, no evento de estreia da Link Investimentos e da Proinvestors na Bahia, quando afirmou que “devemos atravessar o deserto de caixa, sem matar o futuro”.

Com indícios de retomada, ainda que a níveis claramente mais baixos do que nos anos recentes, as preocupações com gestão, racionalização, downsizing e custos continuam válidas, mas a inovação está sendo entendida por todos os especialistas em desenvolvimento como o elemento-chave do novo ciclo.

Recente estudo da OCDE http://www.oecd.org/dataoecd/59/45/42983414.pdf destaca que “A crise atual é a primeira desta severidade a se abater sobre os países da OCDE desde que eles se tornaram economias de serviço baseadas em conhecimento” e aponta o papel da inovação para o desenvolvimento no longo prazo.

Então, é hora de cuidar do futuro, ainda que as dificuldades do presente estejam aí para serem superadas. E a inovação é uma aposta segura para caminhar em direção ao futuro.

Relembrando o clássico “Um TOC na cuca” de Roger von Oech, está na hora de romper os bloqueios mentais com um pensamento inovador, pois é questão de sobrevivência.


Por falar em crise…

6 de Julho de 2009

Leia o artigo do reitor Naomar de Almeida Filho, publicado pelo jornal Folha de São Paulo, em 05 de julho de 2009:

 

Cinco teses sobre a crise…

NAOMAR DE ALMEIDA FILHO


A missão da universidade no século 21 será provocar crises de transformação e renovação, que proponho chamar de crises miltonianas


… NA UNIVERSIDADE é o que proponho neste breve comentário.
Pierre Bourdieu, cientista social recentemente falecido, avançou uma crítica à escola em geral e à universidade em particular como dispositivos do Estado para a reprodução social.
Eis a base da primeira tese: a universidade, em toda sua história, tem sido fundamental na reprodução da estrutura de classes da sociedade; elitista e alienada, confirma seu mandato de guardiã da cultura (dominante), de formadora de quadros (dirigentes), de produtora de conhecimento e tecnologia (economicamente relevantes) e de capital simbólico (politicamente apropriado).
Nessa perspectiva, a universidade gera e gerencia capital científico e cultural essenciais para o modo de produção capitalista, além de atuar como formadora de quadros orgânicos das classes dominantes. Sua ação é social e politicamente relevante não só para a reprodução da instituição mas também para a reprodução ampliada da estrutura de classes.
Simpatizo mais com a tese dois, formulada há mais de 40 anos por Anísio Teixeira, notável educador baiano, como argumento central de sua visão política da educação. Anísio defendia que a revolução democrática, pacífica e sustentável será viabilizada pela universalização da educação nos níveis iniciais -como condição de emancipação política e de equidade social- e por ampla oportunidade de acesso à formação universitária -determinante do desenvolvimento econômico e humano das nações.
A educação, no sentido de formação de cidadãos cultos, críticos e livres, é sem dúvida uma das maneiras eficientes de superar não só crises mas também estruturas e conjunturas. E o que fazer quando é a própria universidade que se supõe em crise?
Isso nos leva à tese três, formulada por Boaventura Santos, sociólogo e pensador lusitano, reconhecido por suas análises da crise de identidade da universidade velha. A universidade, em sua nova história, será necessária, quiçá imprescindível, à superação da sociedade de classes. Comprometida com a transformação social, confirmará sua missão de promotora da etnodiversidade, fomentadora da epistemodiversidade e formadora de cidadãos críticos e engajados.
A etnodiversidade corresponde ao interculturalismo que enriquece (e conflita) o mundo globalizado, e o que chamo de epistemodiversidade tem o nome de ecologia dos saberes na obra de Boaventura.
A quarta tese foi proposta em 1978 por Milton Santos, geógrafo e pensador baiano, num livro chamado “Por uma Geografia Nova”. Essa tese valoriza o novo, “o ainda não feito ou não codificado (…), o desconhecido [que] só pode ser conceitualizado com imaginação, e não com certezas”.
Mais que nunca, é preciso ser criativo para imaginar, experimentar e realizar algo que ainda não havia sido tentado. A tese Milton Santos é uma proposta metodológica desafiadora e ousada que, de certo modo, indica um caminho, um como fazer.
Bourdieu faz um diagnóstico preciso, mas pessimista, sem apontar saídas. Anísio, otimista quase utópico, descortina o horizonte, largo, da educação como libertação. Boaventura apresenta um projeto, digamos, realista de superação das crises políticas resultantes do afastamento da universidade das formações sociais que a aninham. E Milton nos incita a usar a imaginação para criar crises de transformação.
No ano passado, Boaventura fez uma conferência em nossa instituição. Concluiu dizendo que a missão da universidade no século 21 será formar “rebeldes competentes”, e não, eu acrescentaria, tolerar pessoas confusas e incultas, tão cheias de certezas. Nesse espírito, gostaria de concluir com uma tese-síntese.
Rejeito o pessimismo de Bourdieu e antevejo a revolução pacífica pela educação do Anísio visionário. Para enfrentar as sucessivas crises de identidade, realização e legitimidade social da universidade contemporânea, penso que já não basta recuperar tradições vazias e celebrar pactos micropolíticos. A missão da universidade no século 21 será provocar crises de transformação e renovação, que proponho chamar de crises miltonianas.
A força criativa da instituição universitária, recuperada pela experimentação de formas novas de arquitetura curricular, organização institucional e prática pedagógica, pode e deve fomentar um tipo diferente de crise, crises de renovação.
Tais crises configuram transgressões produtivas, de que a universidade brasileira tanto precisa para resgatar o atraso de sua história.


NAOMAR DE ALMEIDA FILHO , 57, doutor em epidemiologia, pesquisador 1-A do CNPq, é reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor, com Boaventura de Sousa Santos, de “A Universidade do Século XXI: Para uma Universidade Nova” (Almedina, 2009).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br


Inovação, casas populares e uma nova importância do consumidor de baixa renda

12 de Maio de 2009

Imagine você comprar uma casa popular de até 43,2 metros quadrados, por aproximadamente R$16 mil???

O grupo indiano Tata imaginou e está colocando em prática, logo depois de ter lançado o carro mais barato do mundo, o Nano.

Veja mais na matéria da revista Epoca Negócio <Depois do carro mais barato do mundo, Tata lançará casa a partir de R$ 16,1 mil>.

A propósito, continuamos a verificar recordes de visitações aos posts deste blog sobre o programa do Governo Federal “Minha Casa, Minha Vida” e sobre o site “Confiança no Brasil”. Constatatação clara da importância do Programa e da enorme demanda por habitações populares e por linhas de financiamento adequadas.

Chegou a hora de inovar de verdade no mercado imobiliário no Brasil. Ou será que vamos esperar a Tata chegar?


Tendências de consumo na crise

12 de Maio de 2009

O Brasil e o mundo vivem novos momentos de euforia no mercado financeiro, após um período de intensa turbulência.

Será que a crise acabou?

Não há como avaliar essa possibilidade, mas é provável que a pior parte tenha ficado para trás e que tenhamos o desafio, a partir de agora, de descobrir os novos caminhos, acompanhar a consolidação de novos paradigmas e viver um período de transição, inevitável.

Pesquisas recentes sobre valoração de marcas e tendências de consumo têm apontado dados interessantes. A Millward Brown apresentou recentemente seu novo relatório (Brandz Top) que aponta, dentre outras tendências, uma maior preocupação pelos consumidores com a relação custo x benefício, o que não significa que a qualidade ficou esquecida.

Outra questão é a intensificação de um movimento antigo de encasulamento, ou seja, as pessoas estão passando mais tempo em casa, com a família, o que explica a valorização de marcas como a Nitendo.

Pequenas indulgências são outro aspecto interessante que explicam os “novos” hábitos de consumo. A pesquisa indica que, fora de casa, as pessoas estão privilegiando pequenos luxos, talvez como forma de reerguer a auto-estima. Estamos falando de óculos de sol, roupas de grife, whisky 42 anos etc … Em entrevista recente na Globo News, Eileen Campbell lembrou o fato de que na década de 30, durante a Grande Depressão, as americanas passaram a consumir um número muito maior de batom, porque as mulheres se permitem pequenos agrados em tempos de recessão.

Outras questões apontadas estão relacionadas a uma compreensível busca pelo controle e redução dos gastos, o que já pode ser percebida pela diminuição do uso de cartões de crédito e o crescimento dos de débito. Da mesma forma, tem sido percebida a substituição das visitas ao shopping por visitas a lojas específicas para solucionar necessidades pré-definidas, o que inclui elevada importância para as compras on-line.

Por fim, a preocupação com a saúde (que é uma tendência antiga) tem se intensificado ainda mais, talvez pela clara constatação da falência do modelo de saúde atual e a insutentabilidade dos custos de assistência baseada em alta tecnologia.

Em resumo, a percepção da crise parece estar intensificando e agilizando tendências que já estavam sendo verificadas há algum tempo, dentre as quais podemos acrescentar as “novas” preocupações com a questão ambiental e com a escassez das tradicionais fontes de energia . Além disso, é unânime a compreensão sobre a crescente importância do consumo das classes mais baixas, assim como de países emergentes, mas esse é um outro capítulo, a seguir.