Por um São João tradicional e sustentável

30 de Junho de 2009

Salvador, 24 de junho de 2009. A cidade, abandonada por grande parte de seus habitantes, parece engolida por uma densa nuvem. A trilha sonora poderia assustar a desavisados. Bombas explodem por segundo em todos os cantos da cidade, acompanhadas por berros entusiasmados de crianças em plena comemoração e outros não tanto felizes de bebês alheios ao que pode estar acontecendo…

Modernizadas pelas suas grandes construções e hábitos metropolitanos, as capitais não possuem mais espaços para as comemorações juninas. “São João é festa para as pequenas (cidades)”. Apesar disso, as evidências demonstram que em algum canto (ou muitos) a tradição se renova e espalha sinais para anunciar que a pretensa modernidade precisa aprender a conviver e a respeitar o que sempre foi feito.

As festas juninas são, sem dúvida, uma das mais fortes tradições da região nordeste. Carregadas de simbolismo, crenças e muito regionalismo, as comemorações representam um dos períodos festivos mais esperados pelos nordestinos. É impressionante a nostalgia que carrega tanto para quem nasceu por aqui, quanto para quem vive ou já conheceu esta realidade. Muitos hábitos praticados neste período precisam ser valorizados e estimulados em virtude das características saudáveis que carregam, a saber a interiorização econômica (mesmo que temporária) para cidades onde são comemoradas as festas, a manutenção e valorização das tradições culturais e do regionalismo, a culinária, dentre tantas outras. A música e o folclore são capítulos à parte e conduzem-nos a um imaginário comum, que incorpora as “quadrilhas” a um clima de plena harmonia.

Indiscutivelmente, a soma destes e de muitos outros fatores resulta em um dos mais importantes produtos turísticos que os estados do nordeste e o Brasil têm a explorar.  Porém ainda falta muito a ser feito para transformar este enorme potencial em um contexto que atraia o contingente de turistas e de gastos que podemos receber.

Aliás, vale lembrar que os jogos da Copa de 2014 no Brasil, terão 4 estados nordestinos como sede e acontecerão em torno das festas juninas. Ou seja, temos uma enorme oportunidade de internacionalizar este calendário e atrair paralelamente aos jogos da Copa um público estrangeiro esperado.

Não é necessário relembrar das necessidades de infra-estrutura, estradas, sinalização turística, operadores turísticos qualificados, rede elétrica adequada, esgotamento sanitário, água tratada, serviços de saúde etc. A pauta de trabalho é extensa e depende sobretudo de uma concertação entre o poder público e a iniciativa privada, em especial o trade turístico.

No entanto, fazer o que tem de ser feito não é suficiente para que o calendário junino do Nordeste entre de vez na agenda do turismo internacional e nacional. Temos que inovar! E, para isso, a sustentabilidade ambiental das festas juninas é um tema que precisa ser discutido.

Quantas toneladas de pólvora são queimadas durante o período junino?

Quantas toneladas de madeira (não certificada) são queimadas?

Não conheço estudos que estimem a emissão de CO2 na atmosfera durante esse período e o impacto para o efeito estufa, aquecimento global, derretimento de geleiras, mas sem dúvida é um tema que merece especial atenção.

Outros impactos ambientais também poderiam ser contabilizados:  queima de balões e os incêndios provocados por estes, poluição sonora e muito sangue derramado. Durante o São João, somente o banco de sangue do estado da Bahia (Hemoba) estima necessitar de pelo menos 20% a mais do que seu estoque habitual para suprir atendimento a queimados, acidentes nas estradas, entre outras necessidades do período.

Apesar de tudo isso, é uma das melhores experiências turísticas, comparável ao carnaval. E é por isso que a festa deve ser zelada, aperfeiçoada com base em uma pauta de pesquisa, desenvolvimento e muita inovação para gerarmos um São João sustentável.

Qual será primeira cidade a levantar esta bandeira? O desafio está lançado!

Quem está pesquisando ou deseja pesquisar tecnologias para solucionar estas questões? 

Os benefícios gerados são inúmeros: créditos de carbono, atração de turistas com poder aquisitivo mais elevado, bem estar da população e uma marca que jamais será esquecida.

Um novo tempo em que se preservem as tradições, valorizando os novos paradigmas globais. Todos os santos agradecem!


Crise, infraestrutura e Banda Larga

17 de Fevereiro de 2009

Diversas propostas estão em pauta para a superação da crise econômica global. Uma das ideias mais interessantes foi divulgada no último dia 12/02, em artigo do Prof. Ruy de Queiroz, do Centro de Informática da UFPE.

Com base em dados atualizados do mundo da tecnologia da informação, ele defende que é necessário contruir uma nova agenda de investimentos, a partir de uma lógica mais próxima da sociedade do conhecimento que vivemos.

 

Infraestrutura para Inovação: Bandalargando a Economia

Fonte: Portal Gazeta Mercantil

 

São Paulo, 12 de fevereiro de 2009 – Vale o cliché: na dificuldade é que se enxerga as novas oportunidades. Em um recente editorial de opinião no Wall Street Journal, Samuel Palmisano, chairman e CEO da IBM, faz um chamado ao novo governo americano que parece ser consensual no setor de tecnologia: mesmo em meio ao desespero (“há que se fazer algo, qualquer coisa, de modo a fazer a economia voltar a fluir”), é preciso aproveitar o momento para criar mais e melhores empregos, cultivar competências de verdadeiro valor, e não simplesmente reparar mas preparar a economia para o novo milênio. Ao invés de assumir projetos simplesmente pela mera criação de atividade econômica, é preciso transformar. Argumentando que investir em inovação custará menos e produzirá resultados mais rápidos que investir em renovação, Palmisano afirma que a infraestrutura é de longe o melhor caminho para a criação de novos empregos e o estímulo ao crescimento. Tendo sido solicitados pela equipe de transição de Obama para fazer um levantamento, pesquisadores da IBM chegaram à conclusão que um pacote de investimentos da ordem de US$30 bilhões em três áreas – redes elétricas inteligentes, assistência médica, e banda larga – poderia levar à criação de 1 milhão de novos empregos em um ano. E isso seria possível porque esses tipos de infraestrutura têm efeitos multiplicadores sociais muito mais significativos que as tradicionais infraestruturas como pontes e estradas.

 

Em analogia com a construção das grandes rodovias interestaduais nos anos 1950s que permitiram o transporte rápido de ativos físicos, com o conseqüente crescimento econômico, hoje no mundo digital em que os principais ativos estão online e são negociados virtualmente, é de se esperar que as comunidades com acesso a banda larga verão crescer sua oferta de empregos a uma taxa bem mais favorável. Evidências científicas de que esse impacto é real e mensurável estão num relatório para o Departamento de Comércio intitulado “Measuring Broadband’s Economic Impact” (Fev 2006), em que  pesquisadores do MIT concluem que entre 1998 e 2002, as comunidades nas quais banda larga estava amplamente disponível experimentaram um crescimento mais rápido em empregos, número total de empresas, e mais especificamente no número de empresas nos setores de uso intensivo da tecnologia da informação. Embora não tenha sido encontrado um impacto estatisticamente significativo nos níveis de salários, os efeitos da disponibilidade da banda larga até 1999 podem ser observados em valores mais altos de propriedades em 2000. A pesquisa utiliza os dados da Federal Communications Commission, “Form 477”, com dados demográficos e econômicos do US Population Censuses and Business Establishment Surveys. A análise classificou os 22390 códigos de endereçamento postal pela disponibilidade de banda larga, e comparou os indicadores econômicos por um longo período, de modo a ver se desvios consistentes da tendência secular eram observáveis, e ao mesmo tempo buscando por fatores que sabidamente influenciam a disponibilidade de banda larga e a atividade econômica, tais como renda, níveis de educação, e localização urbana versus rural.

 

Supreendentemente, os Estados Unidos “inventaram” a internet mas é apenas o 12º país no mundo em penetração de banda larga, e o 15º em velocidade média de banda larga, conforme um levantamento da OECD divulgado em Junho de 2008. Considerando que US$6 bilhões seria pouco para reparar tamanho “vexame”, Saul Hansell escreve no seu artigo “Banda Larga Precisa de Estímulo?” (NY Times, 21/01/08), que a proposta está correta, pois o vexame não procede: com a nova tecnologia de modem para transmissão a cabo sendo disponibilizada, 19 de 20 domicílios americanos serão capazes de ter serviço de internet mais rápido que qualquer um hoje disponível em qualquer parte do mundo. E isso sem que um novo cabo sequer seja instalado. Segundo Hansell, instalar um novo cabo de fibra ótica para cada domicílio americano pode muito bem aumentar a competição entre provedores de banda larga, mas não é necessário para fornecer serviço de internet de alta velocidade. Os atuais modems utilizados em transmissão a cabo usam apenas um dos mais de 100 canais num sistema de cabo típico, e podem oferecer velocidades de 16 megabits por second ou mais. A próxima geração de modems, usando uma tecnologia chamada Docsis 3, permite que vários canais de video sejam combinados para oferecer o que, em última análise, pode ser o serviço de internet tão rápido quanto 1 gigabit por segundo — 10 vezes mais rápido do que o que é oferecido no Japão, que é o país geralmente considerado como tendo a infraestrutura de banda larga mais rápida.

 

Na mesma semana da publicação do texto de Palmisano, em artigo para o Mercury News intitulado “It’s time to broadband our economy”, John Chambers (CEO da Cisco) vai mais adiante ao argumentar que a banda larga tem o potencial de verdadeiramente transformar a economia pois deverá criar empregos exatamente nos setores de crescimento — empregos que impulsionam a economia de colaboração e interação. O poder econômico da banda larga provém de duas fontes: a primeira é o alcance — quantas pessoas estão usando banda larga no trabalho, em casa, e na comunidade. A segunda é velocidade — as velocidades da conexão determinam o impacto sobre o comportamento do usuário. Com efeito, a circulação de bens e serviços na rede deverá aumentar significativamente uma vez que os meios de transporte se tornem mais rápidos, mais estáveis e mais seguros.

 

Dos US$825 bilhões do pacote de estímulo econômico estão previstos US$6 bilhões para melhorar a infraestrutura de banda larga – porém sem a tão reivindicada redução/isenção de impostos. Um resumo da proposta revelada por congressistas do Partido Democrata pede que o dinheiro seja usado para “projetos de banda larga e rede-sem-fio em áreas mal servidas de modo a fortalecer a economia e prover oportunidades de negócios e de empregos em cada recanto da América, com benefícios ao comércio eletrônico, à educação, e à assistência médica. Para cada dólar investido em banda larga, a economia vê um retorno dez vezes maior sobre aquele investimento.” Chambers traz alguns dados numéricos importantes: incluir banda larga no pacote de estímulo econômico não é apenas uma visão de longo prazo — a criação de empregos será imediata, pois a Communications Workers of America estima que 97.500 empregos resultariam de cada US$5 bilhões investidos em infraestrutura de banda larga. A longo prazo, um aumento de 10% no uso da banda larga nos EUA significaria um acréscimo de 2 milhões de empregos, conforme o grupo Connected Nation. E, somente na Califórnia, aumentar o uso da banda larga poderia adicionar 1,8 milhões de empregos nos próximos 10 anos, conforme o Sacramento Regional Research Institute. Um relatório da Information Technology & Innovation Foundation (ITIF) diz que um pacote de estimulo de US$10 bilhões em um ano em redes de banda larga deve levar à criação de 510 mil novos empregos, aí incluídos os instaladores de cabos de fibra ótica, mas cuja maioria virá de negócios que criam novos produtos e serviços usando a capacidade melhorada das redes de comunicação – isso é o que o ITIF chama de “efeitos em rede”. Entre esses novos serviços podem estar incluídos novos serviços de educação e treinamento online, e assistência médica.

Por sua vez, Palmisano lembra que o investimento em registros eletrônicos de saúde (usados por menos de 20% de organizações de assistência médica, conforme um estudo recente financiado pelo Department of Health and Human Services) estimularia a integração e a eficiência em todo o sistema de assistência médica, pois significaria integração – desde o diagnóstico, a descoberta da droga e dos hospitais/clínicas até as seguradoras, empregadores, pacientes e comunidades.

 

Recentemente, num artigo intitulado “Um Plano de Estímulo à Banda Larga. Será que os investimentos do governo em tecnologia das comunicações sem fio e internet conseguirão disparar uma nova onda de crescimento de empregos?”, Michael Mendel (“chief economist”, BusinessWeek) começa lembrando que, em meio à crise econômica, pelo menos um setor tem demanda ainda crescente: o número de mensagens de texto, telefones sem fio, e usuários de internet ainda parece continuar crescendo. “Mais do que nunca, estamos na Era das Comunicações, em que as pessoas demandam mais e melhores conexões à aldeia global”. Após algumas analogias com o setor automobilístico, beneficiado no passado com o investimento governamental na infraestrutura, Mendel conclui, num tom positivo, que nos dias de hoje criar empregos no setor de comunicações, onde a demanda está crescendo, tem tudo para ser mais fácil que criar empregos em indústrias como a automobilística, onde a demanda está encolhendo. “É sempre mais fácil empurrar uma porta aberta”.

 

Se forem dadas as devidas chances (e a infraestrutura, naturalmente) à sorte, quem sabe o otimismo de David Hornik (“Innovation Doesn’t Take a Vacation in an Economic Downturn”, Venture Blog, 21/01/08) vingará, e grandes empreendimentos surgirão da própria crise. Como diz Hornik, o empreender é um vício, não uma escolha: grandes empreendedores não são levados a criar empresas porque é fácil, ou porque há abundância de capital disponível, ou mesmo porque os mercados estão engolindo qualquer coisa que a comunidade de capital empreendedor (“venture capital”) lhes atira. Eles vêem um problema ou uma solução, ou um espaço em branco, ou uma oportunidade, e logo têm que fazer alguma coisa. Inovação não tira férias durante uma depressão econômica.

 

Inovação é uma constante. Se o acesso a recursos pode variar com o clima econômico, o desejo – a necessidade – de inovar nunca se vai. E o capital empreendedor é o combustível da inovação.